domingo, 21 de dezembro de 2014

A culpa

Ela morava numa casa de dois andares. Pequena para uma família e grande demais para uma pessoa. Três quartos, dois desocupados há mais ou menos um ano. Os móveis e decorações intactas, de uma nostalgia em tanto. Ela observava da porta de um dos quartos, os brinquedos jogados no chão, a cama de solteiro desarrumada. A cortina fechada e a poeira devastando aquele cômodo. As bonequinhas de porcelana na estante e alguns livros infantis enfileirados. Apertou a blusa em sentido ao coração, doía tanto. Segurou o choro mais uma vez, fechou a porta e viu a placa com uma menininha esculpida e nela escrita: Laura.

Seguiu pelo corredor do segundo andar – onde os quartos ficavam – e foi para o outro quarto abandonado, dessa vez havia uma placa escrita: PERIGO! Agora não havia nada que a impedisse de entrar – ou talvez houvesse motivos demais para que ela não fizesse isso. Ela girou a maçaneta, e ouviu o ruído que a porta fazia na dificuldade de empurrá-la. Se não fosse pela necessidade dela, ainda haveria caixas de pizzas e hambúrgueres espalhadas pela escrivaninha e outros cantos do quarto. O fone de ouvido pendurado no monitor e a CPU enfeitada com alguns adesivos. Pôsteres de bandas de rock dificultando a aparência calma das paredes pintadas de bege, como também as pichações mal-elaboradas. A escuridão era tamanha, mas não se sabia se o quarto que era tão escuro, ou as lembranças que a fizera ver tudo sem cor e morto. Morto?

Era verão, as empresas tinham liberado alguns funcionários para as férias, e por azar ela tinha sido uma deles. As malas prontas e o porta-malas aberto era uma das últimas lembranças felizes daquela família. Caio a beijara enquanto carregava a mala de Laura para dentro do carro e a pequena vinha atrás com o seu elefante de pelúcia, vestia um vestido rosa com babados e tinha um sorriso único e mágico estampado no rosto, teve um pouco de dificuldade, mas conseguiu subir no banco de trás do carro. Laura chamava por sua mãe para que a abraçasse, e por muito tempo se culpou por não ter dado nela o abraço que ela tanto pedia.

Junior, adolescente, quinze anos. Vestia uma toca e blusa de banda e não sabia-se mais se os fones de ouvidos eram objetos ou se haviam nascido com ele, já que ele sempre andava com aquilo pendurado nos ouvidos. Dentre suas manias de adolescente rebelde, constava o fato de referir-se aos seus pais pelo nome – Caio e Lúcia –, e por muito tempo esta atitude os incomodava. Ele carregava nas costas uma mochila, jogou-a no porta mala, e depois entrou no carro sentando ao lado de sua irmã.

“Onde está sua mala, filho?” – questionou Lúcia, ele não respondeu por causa dos fones de ouvidos, que os graves musicais podiam ser ouvidos por qualquer um. Mas como toda e qualquer outra criança, Laura era uma observadora em potencial.

“O que ele precisa tá na mochila, mamãe.” – sorriu para sua mãe, e voltou a brincar com o seu elefante.

Lúcia respirou fundo, e preferiu não estragar o clima da viagem, deixou por conta de Junior sua necessidade para as férias de duas semanas que nunca existiram. Caio, sorria de uma forma jovial, apesar de que a idade já trazia algumas marcas próximas aos olhos e no cenho. Ele trazia mais duas malas para guardar, assim que as pusera no porta-malas, ele o fechou. Abraçando Lúcia de uma forma que nunca havia abraçado antes, seria sua despedida?

Ambos entraram no carro. Fora ligado. Lúcia dirigia e seguia pela cidade até a BR-101, de Barra Velha-SC até Lages. Os olhares eram vagos enquanto tocava sertanejo universitário na rádio, o travesseiro que estava disposto no banco de trás já era ocupado por Laura.

“Mamãe, abaixa um pouco o volume? Eu quero dormir.” – disse de forma serena, e sua mãe atendeu o pedido. Aqueles foram os últimos minutos em que Laura estivera acordada.

Seguindo sempre em frente, a mão de Lúcia estava sobre a do Caio, havia carícia no seu toque. E em poucos minutos o caminhão que estava ao seu lado, se perdera na curva, jogando a carreta sobre o carro daquela família, empurrando o carro e o esmagando de trás para frente, tudo em câmera lenta, via seus filhos sumindo nos destroços do carro.

Três mortes e uma sobrevivente. Dor e culpa eram os sentimentos que Lúcia carregaria pelo resto da vida, se sentia a assassina das pessoas que ele mais amava. Mas, será que era mesmo? Nunca ninguém poderia responder ou tirar essa culpa dela, jamais. Só lhe restava dores psicológicas e físicas, causadas por um acidente. Acidente. Acidente. Acidente. Ela poderia pensar inúmeras vezes nessa palavra, mas para ela, a culpa seria eterna e nunca a deixaria seguir em frente.

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